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Estatinas: sim ou não?

Os benefícios e o impacto da toma de medicamentos para a redução dos níveis de colesterol têm sido alvo de polémica. Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, esclarece as principais dúvidas acerca das estatinas.

Os resultados do primeiro Inquérito Nacional de Saúde com Exame Físico, estudo promovido pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, indicam que 52,3% dos portugueses tem níveis elevados de colesterol. A obesidade, o sedentarismo e o tabagismo explicam os números. Como consequência, cerca de 63% toma medicação para a hipercolesterolomia, um valor que ascende aos 80,1% entre os 55 e os 64 anos.

 

A toma de estatinas não é, contudo, uma opção consensual, tendo a polémica em torno destes fármacos voltado à ordem do dia. «Devido à campanha anticolesterol/antiestatinas que grassa nos média e na Internet, os clínicos ultimamente têm passado bastante tempo nas consultas a tentar manter os doentes a fazer ou a iniciar terapêutica com estatinas», pode ler-se numa carta aberta de Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, e Ovídio Costa, cardiologista no Hospital da Lapa, ao diretor de informação da RTP, na sequência da transmissão do documentário Colesterol: A Grande Farsa.

 

«O receio causado pelo alarmismo», alertam os especialistas, «leva alguns doentes a abandonar a terapêutica, com graves consequências para a sua saúde (…). Estas campanhas podem ter consequências mortais para os doentes de risco, ao pôr em causa uma terapêutica com efeitos benéficos tão claramente demonstrados.» Em entrevista, o presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia responde a dúvidas comuns.

Saiba quais são os riscos e os benefícios das estatinas

Como atuam as estatinas?

 

Falamos de fármacos importantíssimos, que mudaram o panorama da saúde mundial. Servem para prevenir a aterosclerose, ou seja, para impedir e/ou reduzir a acumulação de gordura (colesterol) nas artérias, precavendo ou evitando o AVC. Atuam de 2 formas: fazem com que o organismo produza menos colesterol (estima-se que cerca de um terço) e têm uma ação anti- inflamatória nas artérias. As estatinas atuam, sobretudo, reduzindo o «mau» colesterol (LDL), embora também subam ligeiramente o colesterol «bom» (HDL) e reduzam os triglicéridos.

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A obesidade como fator de risco cardiovascular

Em que casos se justifica a sua toma?

 

A primeira «arma» é sempre o estilo de vida, a educação para a saúde. Ter a preocupação de fazer uma alimentação saudável, exercício físico, não fumar, reduzir o consumo de sal e emagrecer, se necessário, é essencial. Mas, caso isso não seja suficiente para reduzir o chamado score de risco, as estatinas ajudam, e muito.

 

São indicadas a pessoas com colesterol elevado, hipertensão arterial e diabetes, isto é, que reúnam um conjunto de fatores de risco que elevem as probabilidades de se vir a sofrer de doença cardiovascular (score de risco elevado). Além desses casos, são recomendadas para quem sofre de doença cardiovascular, nomeadamente quem já teve um acidente vascular como, por exemplo, um enfarte do miocárdio.

 

Que fatores determinam o tipo de estatinas a tomar?

 

Deve ser considerada a eficácia e a tolerância face ao organismo para garantir que o doente recebe o tratamento mais indicado, daí que seja possível ir alterando as estatinas até se conseguir uma otimização. Algumas permitem baixar 10, 20, 30 ou mesmo 50% do colesterol e o médico deve afinar o mais possível o tratamento.

 

A maior probabilidade de regressão da aterosclerose (redução da obstrução arterial) ocorre quando os valores de colesterol LDL («mau» colesterol) se situam abaixo de «70», o que corresponde a uma taxa de colesterol total de cerca de «130» ou, nos indivíduos doentes, apesar de sempre terem apresentado valores normais, uma redução de 50%.

 

Para atingir esses valores-alvo, é necessário otimizar a dieta e, por vezes, utilizar doses mais elevadas de estatinas, isoladamente ou em associação com outros tipos de medicamentos.

 

Qual a duração média do tratamento

 

Em geral, dura anos, pois trata-se de uma doença crónica. As estatinas apenas controlam os níveis de colesterol e nunca podemos encarar estes fármacos como responsáveis pela cura. Estamos, sim, perante uma terapêutica preventiva, mas é, sobretudo, recomendada nos indivíduos com doença vascular, como os sobreviventes de enfarte do miocárdio, angina de peito, AVC, doença das carótidas e doença vascular periférica.

 

Durante a sua toma, deve-se seguir as indicações do médico e nunca esquecer os hábitos saudáveis – alimentação e prática de exercício. Isso é essencial. Os doentes a tomar a estatinas sofrem menos enfartes do miocárdio e AVC.

 

Quais os riscos associados à toma?

 

Não são riscos mas efeitos secundários que, quando existem, são muito semelhantes, ainda que a intensidade varie, e afetam sobretudo os músculos e o fígado. Por vezes, existem queixas desencadeadas pela marcha, localizadas nos gémeos e coxas. Se os sintomas forem muito acentuados, deve-se ir ao médico, que pode suspender o tratamento ou mudar para uma estatina diferente.

 

As queixas são pouco frequentes. Por razões de bom acompanhamento e segurança, são feitas análises periódicas ao colesterol e à creatinofosfoquínase, uma enzima muscular que se eleva em casos de toxicidade muscular, e aos enzimas hepáticos.

 

Há relação entre a toma de estatinas e o aparecimento de diabetes?

 

As estatinas podem propiciar um ligeiro aumento do risco de diabetes até cerca de 6%, a partir do quinto ano consecutivo de toma, mas, ao comparar os benefícios e os riscos, os ganhos são incomensuravelmente superiores. As estatinas são recomendadas nos diabéticos por todas as sociedades científicas de diabetologia. Os diabéticos que as tomam sofrem menos acidentes vasculares do que os que não as tomam. Lembro que mais de 80% dos diabéticos morrem de complicações cardiovasculares.

 

Há interações com outros fármacos?

 

Já foram registadas interações com alguns antidepressivos que aumentam as concentrações das estatinas no organismo, podendo provocar dores musculares. Já a vitamina D pode melhorar ou levar ao desaparecimento das dores musculares, eventualmente provocadas pelas estatinas.

 

É possível reverter a necessidade da toma de estatinas?

 

Acreditamos sempre que sim, principalmente se o doente tiver o cuidado de melhorar o estilo de vida. Mas, claro, esse cenário altera-se se estivermos perante casos de alto risco, como é o caso dos doentes sobreviventes de um acidente vascular, enfarte do miocárdio ou outro. Nesses casos, as estatinas estão para ficar, mas sempre a par com os hábitos de vida saudáveis.

Colesterol: O “bom” e o “mau”

O colesterol é «produzido em grande parte pelo fígado e presente em todas as células do corpo. Em quantidades normais, é fundamental: participa nos sais biliares (importantes para a digestão das gorduras), na constituição das hormonas sexuais e é essencial para a constituição das membranas das células. No entanto, quando em excesso, conduz a problemas como a aterosclerose», refere a Fundação Portuguesa de Cardiologia.

 

  • Colesterol LDL

«LDL significa, em inglês, lipoproteína de baixa densidade. Esta sigla representa aquele que é também conhecido por mau colesterol, pois oxida e deposita-se nas paredes das artérias, originando o seu endurecimento e obstrução», indica a Fundação Portuguesa de Cardiologia.

 

* Valor ótimo: <115 mg/dL

 

  • Colesterol HDL

Como explica a Fundação Portuguesa de Cardiologia, «HDL significa, em inglês, lipoproteína de alta densidade. Esta sigla representa o “bom” colesterol, responsável pela remoção do “mau” colesterol do sangue e das paredes das artérias».

 

* Valor ótimo: › 40 mg/dL no homem; › 45 mg/dL na mulher

 

  • Triglicéridos

«São componentes de grande parte das gorduras alimentares (animais e vegetais). Quando em excesso no sangue, também estão associados a um maior risco cardiovascular», explica a Fundação Portuguesa de Cardiologia.

 

* Valor ótimo: < 150 mg/dL

 

  • Colesterol total

A análise de sangue ao colesterol determina em simultâneo o colesterol LDL, HDL e os triglicéridos. Este conjunto de resultados (perfil lipídico) dá-nos o valor do colesterol total.

 

* Valor ótimo: < 190 mg/dL

 

 

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Referências
  • Revista Prevenir

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